Eu não imaginei que “Fazendo as pazes com o corpo”, de Daiana Garbin, iria me tocar de forma tão pessoal. Além da identificação com a história, por ela ter crescido na mesma cidade que eu, Farroupilha, na serra gaúcha, o livro desperta uma nostalgia inesperada. Ao mesmo tempo, carrega um peso emocional grande. Isso porque revela, com muita honestidade, uma trajetória marcada por dor, cobranças e uma relação difícil com o próprio corpo.

Fazendo as pazes com o corpo
- Autoria:
- Daiana Garbin
- Editora:
- Sextante
- Ano de lançamento:
- 2017
- Páginas (nº):
- 168
Um relato sincero sobre corpo, dor e reconstrução
Em Fazendo as pazes com o corpo, Daiana Garbin compartilha sua vivência com transtornos alimentares e com a constante insatisfação com a própria imagem. Desde pequena, ela se via diferente das outras meninas. Enquanto suas amigas eram naturalmente magras, ela carregava um corpo que não correspondia ao padrão idealizado. E isso, aos poucos, foi moldando sua forma de se enxergar.
Com o tempo, essa insatisfação se transformou em uma luta intensa contra o espelho e contra a comida. A autora relata o uso de substâncias, dietas extremas e comportamentos prejudiciais, sempre em busca de um corpo que, na prática, não era compatível com seu biotipo. É um relato forte. Em vários momentos, é impossível não se sensibilizar ao perceber até onde alguém pode chegar para tentar se encaixar em padrões irreais.
Além disso, o livro mostra como comentários aparentemente inofensivos podem causar marcas profundas. Desde a infância, Daiana Garbin foi alvo de observações sobre seu corpo. Mesmo sem intenção, essas falas contribuíram para fortalecer inseguranças e alimentar um ciclo de sofrimento.
O ponto de virada: quando a consciência muda tudo

Com o passar dos anos, já na vida adulta, veio a consciência de que aquilo não era apenas uma insatisfação comum, mas sim um transtorno. E, a partir daí, começa um processo de mudança. Em Fazendo as pazes com o corpo, ela mostra que aceitar o próprio corpo não significa amar cada detalhe o tempo todo. Significa, acima de tudo, não permitir que essa insatisfação controle a vida.
Na primeira parte do livro, Daiana conta sua história de forma intimista e pessoal. Na segunda parte, ela compartilha aprendizados, estudos sobre transtornos alimentares e fala sobre o projeto EuVejo, que marcou o início da sua transformação. Eu amei ler a primeira parte do livro, que é mais um relato pessoal, enquanto essa segunda parte é mais densa e um pouco cansativa de ler, mas também muito necessária, porque traz reflexão e orientação.
No geral, Fazendo as pazes com o corpo é uma leitura importante. Mesmo para quem não enfrenta diretamente questões com peso ou imagem, o livro abre os olhos para a influência dos padrões impostos pela sociedade. Vivemos cercados por expectativas irreais. E, muitas vezes, sem perceber, começamos a nos moldar a elas.
Daiana Garbin nos convida a olhar para a vida real. Uma vida que não é perfeita (ao contrário do que mostram as redes sociais), mas que é possível, leve e verdadeira. Ela lembra que existem corpos de todos os tipos, e que todos merecem respeito. Mais do que isso, lembra que viver plenamente é muito mais importante do que atingir um padrão.
No fim, Fazendo as pazes com o corpo é um convite à reconexão com quem somos. Um lembrete de que nossa essência não pode ser perdida na tentativa de agradar expectativas externas.
